À beira da vida

Ela se encontrava aos pés de uma igreja, bem no alto de uma montanha. Uma enorme escadaria levava ao local. Para os fiéis, subir tudo aquilo era prova de fé. Para Alice, apenas um percurso necessário para cumprir seu objetivo: a morte. Escolhera aquele local porque pensou que talvez, com um pouco de sorte, fosse mais fácil se encontrar com Deus por partir dali. Não que ela acreditasse em Deus né? Alice era ateia e estava decidida: se jogaria do alto do penhasco.

Mas antes de desenvolver a história, vamos conhecer Alice. Ela tem uma mente complexa, de outro mundo. Ninguém conhece Alice muito bem, nem ela mesma. Seu cérebro funciona a mil por hora, no 220V. Ela é heroína, é carrasca, é fada, é princesa, é bruxa. Tem tudo e nada dentro de si.

Mas já faz um tempo que Alice se perdeu nesses sentimentos. Sofreu demais. Pensou que havia superado. Mas ficou um vazio no peito. Foi isso que a conduziu até aquela pálida construção, em um dia vazio, cinzento. Da cor da sua alma naquele momento.

Ao chegar lá, ela se despiu. Estava com um vestido longo, como sua longa vida de tantos desencontros. E ficou como veio ao mundo. E assim voltaria para onde viera. Nua!

Um vento frio percorria o local naquele fim de tarde de junho. Alice sentiu um frio na espinha e surgiu uma voz na consciência.

– Alice, você está mesmo pronta para isso? – disse a voz

Ela ficou confusa. Sabia que estava triste, devastada por dentro. Mas não louca o suficiente a ponto de ouvir vozes. Mesmo assim respondeu.

– Ninguém nunca está pronta pra nada nessa vida.

– Por que, então, não esperar e pensar um pouco mais? – retrucou a voz

– Já esperei demais. Sonhei demais. Vivi demais. Amei demais…

– Como você está se sentindo?

– Cansada.

Em silêncio, Alice se encaminha para a ponta do morro. Precisa silenciar aquela voz. E acabar com a dor.

– Sabia que quem se mata não quer de fato morrer? E sim acabar com a dor?

– Maldita voz! – pensa Alice, mas não diz nada.

– Não faça nada que vá levar a um arrependimento depois. – insiste a voz.

– Não há arrependimento depois da morte. Simplesmente acaba. É como dormir, só que para sempre.

– Tem certeza? – ela não desiste.

– Eu não sei por que de repente te devo satisfações! – protesta Alice

– Porque você quer, Alice. Você me chamou aqui. Como nos sonhos. Eu sou uma projeção do seu inconsciente falando contigo. E você não quer partir. Você quer ficar, ser feliz. Viver.

– Viver mais? Eu já vivi além da cota. Meu cartão está estourado. Meu pote está cheio, prestes a transbordar. – Alice chora.

– Transborde de amor, Alice. Transborde de vida. Responda aos desafios com o dobro de energia. Você tem isso dentro de si. Você sabe disso.

– Acho que me viciei na tristeza.

Alice enxuga as lágrimas, recua, pensa.

– Me viciei na tristeza só pra não dar o braço a torcer. Sofrer se tornou mais cômodo que superar.

A voz não responde. No coração, Alice já sabe o que ela diria. Recolhe as roupas, olha para a igreja. É ateia e nada vai mudar. Mas hoje, só por hoje, ela vai entrar e tentar aprender algo diferente: rezar. Mas que isso, ela vai tentar sobreviver. E renascer.

Esse texto faz parte da série “Diálogos em mim”, desenvolvida pela autora Carolina Pessôa. Aguardando pessoas boas que queiram dar um espaço editorial e dramatúrgico para ela. Também sendo publicado no Wattpad.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *